domingo, 26 de outubro de 2014

saiba

as vezes sinto
tristeza
de coração doer

três palavras
em 116 horas e meia
de eco

tecla a tecla
o cérebro toca a parte do superior do crânio
tenho mais dor.

domingo, 5 de outubro de 2014

peso nenhum

seus lábios trêmulos
você correndo de mim e ficando pra trás
seus olhos inquietos
a dúvida e as certezas:

eu não tenho mais tempo pra escrever sobre o móvel porque a vida
está sem peso nenhum.

domingo, 14 de setembro de 2014

cabe ao homem

cabe ao homem pagar por uma passagem
      e cruzar estradas com figuras verdes de memórias
cabe ao homem o silêncio
        entre as senhoras conversando sobre novelas
cabe ao homem
        o olhar
      e o abraço
        todas as praças
      e todos os gestos
      e novamente os silêncios
cabe ao homem desfazer todos os nós
        que uma vez se deram
e cabe ao homem
        vez ou outra
        infelizmente
        aceitar o peso do signo
        (controlando os outros)
        grafando em tinta negra
        humilde e inocentemente

        Amor.

sábado, 13 de setembro de 2014

parede (mais uma vez ao miles davis)

deveras houve dias de presságios
mas nunca soube que a tempestade
traria par'o mesmo azul listrado
meu corpo mais uma vez esgotado

ao meu lado mais um (o mesmo dos dias inapagáveis)

sabe-se lá por quanto tempo haverá
ilustrações
recheando as paredes
antes de serem repintadas.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

placa

essa foi a despedida mais dura

as coisas já se mostravam em maus sinais
incompreensíveis antes do desfecho

são esses pensamentos vagos
palavras mortas e despedaçadas
tentando sobrepor-se à plástica noite

metade do seu rosto, apagado
da outra direção, um bêbado
e seus olhos em mim
já nem tão vermelhos

palavras perdidas e imagens
um vazio que substitui o proceder do tempo

estou trancado no ônibus
pensando em te ligar
em te escrever
em ti

no meu reflexo vejo a luz do extintor
e ouço aqueles risos
agonizantes
e sua voz


as vezes a gente desaba.


o som do nada reverberando dentro da minha caixa craniana
eu tenho vontade de nunca ter me calado pra ver o que vi
eu eu eu

eu escrevi isso algumas vezes e nunca pensei que estaria soterrado.

as vezes a gente desaba
as vezes
as vezes a gente
a gente desaba
as vezes desaba
a gente
as vezes a gente desaba

uma placa de metal fina ecoando ecoando e barulhos externos e deus













você está tao longe







tao quieta


não se desculpa
por favor

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

sonetos de madeira que só se levantaram porque lhes deste a vida

suas marcas no rosto são os sois
perdidos em tempos indefiníveis
(por mais que eu o tente)
e seus olhos são as duas pontas do cilindro negro
voltados para a mesma direção
sistólica e diastolicamente, teus ares me surgem e me matam
são o mistério da origem
a visão negra da galáxia, branca como o leite
     a aveia
    e a soja
     (tua pele)

todas as canções e todas as baladas são tolices diante
tudo que me torna e nos torna nada
toda lembrança e todo o conhecimento e todas os extratos
idem
e há de haver coragem para que se diga tudo
porque mesmo as palavras e os termos são vazios

talvez não se compreenda que o mais belo signo
é um tronco oco, de som opaco e puro
que tenta preencher os silêncios que quero ler e dizer
e que tenta ouvir a mudez das vozes

sábado, 30 de agosto de 2014

manchada de vermelho

EU CONSIGO OUVIR O SOM DO SUSPIRAR PESADO
DA FELICIDADE
PERCORRENDO MEU POLEGAR DIREITO
ENQUANTO EU ROÇO SEUS LÁBIOS
COMO QUE O FRAGMENTO DE UM FILME QUALQUER DO GODARD, AJUSTADO A MINHA MANEIRA
EU CONSIGO SENTIR A FELICIDADE
MORDENDO MINHAS FERIDAS CICATRIZADAS
E VEJO SUA BOCA MANCHADA DE VERMELHO
POR MINHA BOCA
CHEIRO SEUS CABELOS DESESPERADAMENTE
E TENTO ACHAR O QUE TANTO ME FAZ OUVIR PERDIDO EM TREVAS DE ODORES NERUDIANOS
SINTO SEU GOSTO EM MINHA GARGANTA
E SEU PERFUME EM MINHA PELE
            E EM MINHAS ROUPAS
E SUAS MÃOS MINÚSCULAS DENTRO DAS MINHAS
    E FORA DELAS
E SEUS DEDOS GORDINHOS EM MEU QUEIXO E NAS MINHAS COSTAS

A FELICIDADE É DESESPERADORA PORQUE ELA TE DESMORONA QUANDO ESTÁS NO FUNDO
E NADA SERÁ FEITO ATÉ SEU FIM
A FELICIDADE É DESESPERADORA E INCONTROLÁVEL
É COMO OUVIR UMA MÚSICA DOS BEACH BOYS NUMA ANTIGA PRAÇA PRÓXIMA À IGREJA ONDE NASCI
DURANTE A NOITE PERCORRER SEU CALÇAMENTO ACIDENTADO
E VER OS GALHOS SUBLINHADOS PELAS LUZES DOS POSTES
CHORANDO SEM SABER PORQUE
MAS SABENDO PORQUE

  PORQUE A FELICIDADE É AGONIZANTE

É SE IMOBILIZAR POR DIAS SEMANAS
É SAIR DO TEMPO SAIR DE DIMENSÕES E PIXELS E ONDAS E TENTAR LEMBRAR O QUE ACONTECEU
NAQUELE CHÃO ESCURO.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

(nu) três e cinquenta; quatro reais

eu estou apagando
a moça do posto me vê
ela é simpática
masculi
na




ela é a única
que eu con
sigo cumprimentar

cumprimento

boa noite
boa noite

a hein fica aqui
na geladeira






tá igual ao jonh lennon
é músico?
john lennon

olhei no fundo de seus olhos e disse
que desapareci

bebi

sua passagem.

domingo, 17 de agosto de 2014

o peso de nós mesmos

eu não tenho mais meus poemas
na gaveta
e não costumo pensar em recomeçar
uma nova coleção
porque não saberia mais
escrever-me.

minhas palavras estão cortadas
e parecem menores
meus versos curtos estão vazios
e os longos muito
cheios.

"eu nunca vou deixar ninguém ler nada
 não pode."

as vezes gosto da minha voz
as vezes do meu corpo
           mas nunca tenho vez.

meus braços se cansam rápido
minhas feridas tem demorado dias
-- a bebida e o machucado da minha mão...

minha mãe está em meia paz
eu não preciso de mais nenhum mea culpa.

pela tarde
pela primeira vez
se eu fechar os olhos e respirar
fundo ou não
talvez o ar saia lacrimegado.

são sons tranquilos
até o latido alto.

são tempos sem lembranças
são passados sem calendário
dias perdidos que eu
graças a deus
posso aproveitar cercado por água.

deus
você é engraçado
eu sempre fui mais amigo de jesus
até hoje não me encontrei com o capixaba
-- sempre achei o nome engraçado.

o que quero dizer é que as coisas estão diluídas
e eu não sei se devo escrever
ou mesmo se consigo.

tudo o que eu quero é que as coisas se acabem:
que tudo se isole
que os sons se dispersem
que as ideias se desunam
e que
no final das contas
respiremos
livres
sem o peso de nós mesmos.