domingo, 17 de agosto de 2014

o peso de nós mesmos

eu não tenho mais meus poemas
na gaveta
e não costumo pensar em recomeçar
uma nova coleção
porque não saberia mais
escrever-me.

minhas palavras estão cortadas
e parecem menores
meus versos curtos estão vazios
e os longos muito
cheios.

"eu nunca vou deixar ninguém ler nada
 não pode."

as vezes gosto da minha voz
as vezes do meu corpo
           mas nunca tenho vez.

meus braços se cansam rápido
minhas feridas tem demorado dias
-- a bebida e o machucado da minha mão...

minha mãe está em meia paz
eu não preciso de mais nenhum mea culpa.

pela tarde
pela primeira vez
se eu fechar os olhos e respirar
fundo ou não
talvez o ar saia lacrimegado.

são sons tranquilos
até o latido alto.

são tempos sem lembranças
são passados sem calendário
dias perdidos que eu
graças a deus
posso aproveitar cercado por água.

deus
você é engraçado
eu sempre fui mais amigo de jesus
até hoje não me encontrei com o capixaba
-- sempre achei o nome engraçado.

o que quero dizer é que as coisas estão diluídas
e eu não sei se devo escrever
ou mesmo se consigo.

tudo o que eu quero é que as coisas se acabem:
que tudo se isole
que os sons se dispersem
que as ideias se desunam
e que
no final das contas
respiremos
livres
sem o peso de nós mesmos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário